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terça-feira, 17 de março de 2009

Todos os anos o 8 de março é comemoração e principalmente organização e luta das mulheres em todo o mundo - por Ana Pimentel

Todos os anos o 8 de março é comemoração e principalmente organização e luta das mulheres em todo o mundo - por Ana Pimentel

Todos os anos o 8 de março é comemoração e principalmente organização e luta das mulheres em todo o mundo - por Ana Pimentel

O 8 de março é fruto da mobilização de operárias no início do século passado. Sua principal referência histórica é a II Conferência Internacional das Mulheres Socialistas em 1910 em Copenhague, na Dinamarca. Clara Zetkin propôs uma resolução de instaurar oficialmente um Dia Internacional das Mulheres. Nessa resolução, não existia alusão ao dia 8 de março. Em 1921, durante a Conferência Internacional das Mulheres Comunistas, "uma camarada búlgara propõe o 8 de março como data oficial do dia internacional da mulher", lembrando as operárias russas que deram início as mobilizações da Revolução de 1917 nessa data. A partir de 1922, o Dia Internacional da Mulher é celebrado oficialmente no dia 8 de março.

Hoje, existe uma concepção que anuncia a "chegada da mulher ao seu lugar". Os mais pessimistas proclamam ser "questão de tempo" a definitiva igualdade entre homens e mulheres. O 8 de março é "comemorado" com promoções nas lojas, distribuição de brindes e muitas, muitas flores e chocolates. Tal abordagem reforça a importância de utilizarmos todos nossos instrumentos para dar visibilidade ao real significado do 8 de março. Por todos os lados propala-se a data como uma consagração dos esteriótipos relacionados a "feminilidade". Tal palavra representa o "ideal" a que toda mulher deve percorrer e está relacionado a um protótipo estético e de comportamento, ambos intrinsecamente submetidos a um padrão de consumo. Em síntese, as mulheres "de verdade" devem corresponder ao padrão de beleza e comportamento que também é o sinônimo de saúde. Nesse ponto de vista, o consumo é o instrumento para a construção da identidade "feminina" e realização pessoal. Esses modelos e valores são introjetados, passam a constituir o padrão aspiracional construindo a subjetividade, causando grande ansiedade. São raras as mulheres que correspondem a esse padrão. O resultado desse modelo é o aumento dos transtornos psiquiátricos tendo a medicalização excessiva como resposta.

A construção desse esteriótipo funda-se na idéia de que há uma divisão daquilo que se refere as mulheres e aos homens na nossa sociedade. Ser "feminino" e "masculino" está relacionado a determinados tipos de vivências e responsabilidades. Baseia-se na noção de quê existe uma esfera privada e uma esfera pública, cada uma sob uma determinada responsabilidade . Assim, a esfera pública - trabalho produtivo, dos direitos, da igualdade - considerada responsabilidade dos homens. A esfera privada, que é considerada o local do afeto, da intimidade, do lar - responsabilidade das mulheres. A partir daí organiza aspectos sociais, vivências particulares, símbolos, representações que sustentam essa opressão. Nessa visão, o cuidado e reprodução são vistos como atividades das mulheres. Associado a isso, a noção de que à mulher está destinada a maternidade. Naturaliza, assim, as relações sociais omitindo-se os custos do cuidado e da reprodução e legitimando a desigualdade existente entre homens e mulheres.

O feminismo vem afirmar que essa divisão é construída socialmente. Incorpora, logo, ao debate político, questões consideradas privadas, como a sexualidade; a denúncia da violência contra a mulher existente, inclusive, na vida familiar; discriminação da mulher no mundo do trabalho; a exclusão das mulheres dos espaços de poder; além do papel da mulher como única responsável pelo cuidado e reprodução da sociedade; a falta de autonomia das mulheres sobre suas vidas e seus corpos. Vem afirmar que o cuidado e a reprodução são fundamentais para nossa sociedade e devem ser responsabilidade de todas e todos com garantia de políticas públicas efetivas. Para tanto, é fundamental que o Estado assuma sua responsabilidade por garantir políticas públicas que revertam a lógica do cuidado como destino natural das mulheres. A construção de creches, lavanderias e restaurantes públicos são instrumentos absolutamente necessários para a construção da autonomia das mulheres.

Vivenciamos hoje uma crise que é resultado de um modelo baseado na superexploração do trabalho e especulação financeira. No momento de crise, as demissões e retirada de direitos transferem uma maior parcela de responsabilidade do cuidado, reprodução para o espaço privado atingindo diretamente as mulheres. Nós, mulheres, não vamos pagar por essa crise, propomos as seguintes medidas, para impedir seu aprofundamento: a ampliação dos programas de transferência de renda; aumento da disponibilidade de crédito; ampliação de recursos públicos para educação e saúde universais; democratização do orçamento público através do orçamento participativo; valorização do salário mínimo.

A opressão das mulheres é uma realidade estruturante das relações desiguais historicamente constituídas. Nossa ação política é orientada para a construção de uma sociedade sem opressão e exploração econômica, superando as diversas formas de discriminação e desigualdades sociais.

Em todos os Estados do Brasil a UNE se somará ao movimento de mulheres na organização de seminários, mostra de cinema, vídeos, teatro, palestras, oficinas e atos relembrando a história e atualizando a agenda feminista. Participe dessa agenda você também!

Todos ao 8 de Março!

Todos ao 8 de Março!

O Dia Internacional da Mulher, comemorado anualmente no 8 de março, é uma data para ser celebrada como referência de luta contra o machismo e todas as formas de opressão, bem como momento propício para levantar ainda mais alto a bandeira da construção de uma nova sociedade. Este ano, com a grave crise econômica que assola o mundo e traz terríveis conseqüências para os povos, o movimento emancipacionista também vai às ruas dizer que as mulheres não vão pagar pela crise!

Acompanhe o documento escrito pela Frente de Jovens Mulheres da UJS orientando a participação das jovens socialistas no 8 de Março.

Todos ao 8 de Março!

No dia 8 de março comemoramos o Dia Internacional da Mulher. Dia de muita festa; dia de muita luta!

A opressão das mulheres conhece diversas formas que nos são apresentadas todos os dias. É uma prática com forte base cultural que tem seu início com divisão da sociedade em classes; por ser tão antiga, é vista com naturalidade e é amplamente aceita na sociedade. Somente com a superação das classes sociais poremos fim à exploração de gênero e jamais poderemos falar em socialismo pleno sem a derrota das concepções machistas reacionárias.

E apesar da superação total do machismo só ser possível com a extinção da propriedade privada, é possível conquistarmos avanços pontuais significativos mesmo nos marcos do capitalismo. Assim como na luta geral dos trabalhadores, as mulheres se engajaram e alteraram o curso da história: como o direito ao trabalho remunerado e não-doméstico, ao voto, ao divórcio, a freqüentar universidades, à contracepção entre outros. Nenhum deles veio de graça, ao contrário, foram todos fruto de muita mobilização ao longo dos anos, custou a vida de inúmeras mulheres. E hoje, apesar da mentira dos discursos burgueses, as mulheres estão muito longe ainda de encontrarem igualdade. Mesmo depois de tanta luta, ocupam ainda espaços de menor prestígio na sociedade, seja no trabalho, na política, na academia etc. São ainda vítimas de violências e preconceitos.

Isto exige de nós (mulheres e homens de consciência avançada) alto patamar de politização e combatividade no Dia Internacional da Mulher, para conscientizar mais e mais o povo brasileiro da necessidade de combater o machismo e de derrubar este regime cruel de exploração dos trabalhadores.

Por isso, neste 8 de março, não deixaremos de denunciar as mazelas da gravíssima crise econômica internacional ocasionada pela irracionalidade do capital, e vamos às ruas dizer que nós, mulheres, não vamos pagar por essa crise!

Além de denunciar veementemente a crise, não devemos em hipótese nenhuma deixar de pautar a questão da legalização do aborto, última barreira (do ponto de vista da legislação) à emancipação da mulher no Brasil e cuja criminalização só gera mortes, infecções e traumas em nossas jovens mulheres.

Por isso, nós, jovens socialistas em todo o Brasil, devemos nos engajar decididamente nas atividades comemorativas do 8 de Março em cada estado / região, fortalecendo o campo progressista, não-sexista, emancipacionista, ao lado de nossa entidade amiga, a União Brasileira de Mulheres – UBM, mas com a cara própria e a irreverência que são marcas da nossa juventude e da UJS.

Vamos todos ao 8 de Março!

Mariana R. Venturini – Direção Nacional da UJS – Frente de Jovens Mulheres
Paula Falbo - Direção Nacional da UJS – Frente de Jovens Mulheres

Quando o aborto é mais grave que o estupro

Quando o aborto é mais grave que o estupro

Escandalizou o país a história da gravidez de uma criança de nove anos, que desde os seis era molestada pelo padrasto. A atitude abominável do homem não recebeu, no entanto, condenação tão grave da Igreja Católica quanto a interrupção da gravidez fruto da violência. Prova disso foi a excomunhão da mãe da garota e dos médicos que realizaram o aborto. Segundo a concepção reacionária do arcebispo de Olinda e Recife, eles teriam cometido "delito mais grave".

Leia o artigo do blog "Janela Sobre a Palavra", da jornalista e ex-presidente da UJS-SP Renata Mielli, que trata sobre o tema.

Quando o aborto é mais grave que o estupro

“O padrasto cometeu um delito gravíssimo, mas tal delito (o estupro), de acordo com o Direito Canônico, não é passível de excomunhão automática. O aborto é mais grave ainda”

D. José Cardoso Sobrinho, arcebispo de Olinda e Recife.

O caso está na boca do povo, em todos os meios de comunicação e chocou o mundo pela monstruosidade cometida contra uma criança de apenas 9 anos e pela postura que a Igreja Católica tomou diante do fato.

A criança – que fora estuprada pelo padrasto desde os 6 anos de idade, conforme o mesmo confessou após a descoberta de que a menina estava grávida de gêmeos – foi submetida à interrupção da gravidez. O procedimento realizado na menina está entre os permitidos pela legislação que trata do tema, já que no Brasil, o aborto é legal em casos de estupro e risco de morte para a mãe.

Diante da Sagrada Igreja, os pecadores dessa história são a mãe e os médicos. Eles, que promoveram a morte de um ser humano, mereceram a excomunhão da Igreja. O pai cometeu um delito. E a menina? Essa ‘alma’ perante a Igreja tem valor menor, não importa o que já se passou com ela e o que poderia se passar caso se mantivesse a gravidez.

A sociedade brasileira não pode mais se calar diante da hipocrisia de uma instituição caduca e irresponsável como a Igreja Católica. A declaração do arcebispo de Olinda e Recife é um desrespeito às mulheres, às crianças e pior, é uma palavra de incentivo aos criminosos, aos estupradores.

Como uma pessoa pode dizer que o aborto é algo mais grave que o estupro, qualquer estupro que seja, nesse caso, mais grave porque foi feito contra uma criança indefesa? Que perversidade representa essa Igreja, uma instituição machista, que mandava às mulheres para a fogueira, pelo simples fato de serem mulheres independentes em seus tempos?

Onde estão os defensores da vida nesse momento? Aqueles que querem promover uma nova Inquisição, uma nova caça às bruxas contra as mulheres que exercem o legítimo direito de decidir sobre suas vidas e seus corpos? Os que querem comandar uma CPI do aborto na Câmara dos Deputados para condenar as mulheres? Eles estão de que lado nesse caso? Do lado do estuprador? E a vida da menina de 9 anos, não importa?

É o triste resgate do famigerado bordão “Estupra mas não mata”.

O Brasil e a sociedade brasileira não podem mais estar coniventes com esse tipo de postura. É hora de tratarmos dessa questão como um problema social e não religioso, uma questão de saúde pública, de dever do Estado em dar assistência médica às mulheres que tomarem a difícil decisão de interromper uma gravidez.

Quanto a excomunhão, sentimo-nos - todos os que lutam pelos direitos das mulheres -, excomungados com muito orgulho.

Renata Mielli é jornalista do portal Vermelho. Foi presidente da UJS-SP e membro da diretoria executiva da UNE (97-99).

http://renatamielli.blogspot.com/