Todos os anos o 8 de março é comemoração e principalmente organização e luta das mulheres em todo o mundo - por Ana PimentelO 8 de março é fruto da mobilização de operárias no início do século passado. Sua principal referência histórica é a II Conferência Internacional das Mulheres Socialistas em 1910 em Copenhague, na Dinamarca. Clara Zetkin propôs uma resolução de instaurar oficialmente um Dia Internacional das Mulheres. Nessa resolução, não existia alusão ao dia 8 de março. Em 1921, durante a Conferência Internacional das Mulheres Comunistas, "uma camarada búlgara propõe o 8 de março como data oficial do dia internacional da mulher", lembrando as operárias russas que deram início as mobilizações da Revolução de 1917 nessa data. A partir de 1922, o Dia Internacional da Mulher é celebrado oficialmente no dia 8 de março.
Hoje, existe uma concepção que anuncia a "chegada da mulher ao seu lugar". Os mais pessimistas proclamam ser "questão de tempo" a definitiva igualdade entre homens e mulheres. O 8 de março é "comemorado" com promoções nas lojas, distribuição de brindes e muitas, muitas flores e chocolates. Tal abordagem reforça a importância de utilizarmos todos nossos instrumentos para dar visibilidade ao real significado do 8 de março. Por todos os lados propala-se a data como uma consagração dos esteriótipos relacionados a "feminilidade". Tal palavra representa o "ideal" a que toda mulher deve percorrer e está relacionado a um protótipo estético e de comportamento, ambos intrinsecamente submetidos a um padrão de consumo. Em síntese, as mulheres "de verdade" devem corresponder ao padrão de beleza e comportamento que também é o sinônimo de saúde. Nesse ponto de vista, o consumo é o instrumento para a construção da identidade "feminina" e realização pessoal. Esses modelos e valores são introjetados, passam a constituir o padrão aspiracional construindo a subjetividade, causando grande ansiedade. São raras as mulheres que correspondem a esse padrão. O resultado desse modelo é o aumento dos transtornos psiquiátricos tendo a medicalização excessiva como resposta.
A construção desse esteriótipo funda-se na idéia de que há uma divisão daquilo que se refere as mulheres e aos homens na nossa sociedade. Ser "feminino" e "masculino" está relacionado a determinados tipos de vivências e responsabilidades. Baseia-se na noção de quê existe uma esfera privada e uma esfera pública, cada uma sob uma determinada responsabilidade . Assim, a esfera pública - trabalho produtivo, dos direitos, da igualdade - considerada responsabilidade dos homens. A esfera privada, que é considerada o local do afeto, da intimidade, do lar - responsabilidade das mulheres. A partir daí organiza aspectos sociais, vivências particulares, símbolos, representações que sustentam essa opressão. Nessa visão, o cuidado e reprodução são vistos como atividades das mulheres. Associado a isso, a noção de que à mulher está destinada a maternidade. Naturaliza, assim, as relações sociais omitindo-se os custos do cuidado e da reprodução e legitimando a desigualdade existente entre homens e mulheres.
O feminismo vem afirmar que essa divisão é construída socialmente. Incorpora, logo, ao debate político, questões consideradas privadas, como a sexualidade; a denúncia da violência contra a mulher existente, inclusive, na vida familiar; discriminação da mulher no mundo do trabalho; a exclusão das mulheres dos espaços de poder; além do papel da mulher como única responsável pelo cuidado e reprodução da sociedade; a falta de autonomia das mulheres sobre suas vidas e seus corpos. Vem afirmar que o cuidado e a reprodução são fundamentais para nossa sociedade e devem ser responsabilidade de todas e todos com garantia de políticas públicas efetivas. Para tanto, é fundamental que o Estado assuma sua responsabilidade por garantir políticas públicas que revertam a lógica do cuidado como destino natural das mulheres. A construção de creches, lavanderias e restaurantes públicos são instrumentos absolutamente necessários para a construção da autonomia das mulheres.
Vivenciamos hoje uma crise que é resultado de um modelo baseado na superexploração do trabalho e especulação financeira. No momento de crise, as demissões e retirada de direitos transferem uma maior parcela de responsabilidade do cuidado, reprodução para o espaço privado atingindo diretamente as mulheres. Nós, mulheres, não vamos pagar por essa crise, propomos as seguintes medidas, para impedir seu aprofundamento: a ampliação dos programas de transferência de renda; aumento da disponibilidade de crédito; ampliação de recursos públicos para educação e saúde universais; democratização do orçamento público através do orçamento participativo; valorização do salário mínimo.
A opressão das mulheres é uma realidade estruturante das relações desiguais historicamente constituídas. Nossa ação política é orientada para a construção de uma sociedade sem opressão e exploração econômica, superando as diversas formas de discriminação e desigualdades sociais.
Em todos os Estados do Brasil a UNE se somará ao movimento de mulheres na organização de seminários, mostra de cinema, vídeos, teatro, palestras, oficinas e atos relembrando a história e atualizando a agenda feminista. Participe dessa agenda você também!
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